A MODA DOS CABELOS DE PLÁSTICO...É UM TEXTO DE PRISCILA PRADO
- Daniela Amaral
- há 5 dias
- 6 min de leitura

Tudo começou no Super Fashion in Shopping Mall, quando um dos estilistas apresentou sua nova coleção: todas as e os manequins ostentavam perucas de plástico. Cabelos de plástico inspirados nos bonecos infantis.
Foi uma ideia interessante e divertida. E talvez não passasse disto...
Talvez tivesse passado despercebida se não estivesse na platéia uma roteirista integrante da equipe dos escritores da novela das oito.
É que ela adorou a idéia – pensou primeiro em si mesma, no quanto aquilo poderia facilitar a sua vida e, em seguida, lembrou-se da “mocinha”, protagonista da ficção.
Na verdade, a “mocinha” já não era tão mocinha, mas era a personagem principal: uma empresária bem sucedida, riquíssima, inteligentíssima, nobilíssima. Uma verdadeira heroína dividida entre as responsabilidades pelos sucessos e insucessos de sua empresa, a crise em seu casamento, os problemas com os filhos adolescentes, e as peripécias com seu amante secreto. Nada que a impedisse de manter-se virtuosíssima.
A atriz que fazia o papel era lindíssima, o que sem dúvida iria ajudar: os novos cabelos de plástico haveriam de cair-lhe bem.
Como a trama, de tão complexa, andava um pouco enrolada, a novidade serviria para distrair a atenção do público por uns dois ou três capítulos.
A ideia era despretensiosa e, não antevendo quaisquer consequências, o redator-chefe concordou – apesar dos protestos de um ou outro roteirista e da própria atriz que iria passar o ridículo. Mas fizeram-na ver que se tratava da obra de um grande estilista e, como ela era uma atriz moderna – e, afinal de contas, uma profissional –, convenceram-na a experimentar diferentes modelos de diferentes cores e, como tudo ficava bem para ela, os cabelos de plástico não prejudicaram sua beleza e ela concordou.
Quando o capítulo foi ao ar, com seus novos cabelos vermelhos, ela parecia mais jovem, bem humorada, poderosa. A moda foi apresentada como uma estratégia para economizar tempo na agenda da personagem e ajudá-la a conciliar suas estafantes tarefas de heroína.
Algumas heroínas da vida real assistiam de suas poltronas, sofás, cadeiras. Outras viram de passagem pela sala de TV, enquanto passavam para cá e para lá em seus afazeres do terceiro turno.
A novidade chamou a atenção de executivas exaustas e bem penteadas e de donas de casa exaustas e descabeladas. De telespectadoras de cabelos compridos e curtos; castanhos, negros, louros e ruivos; das que estavam de cabelos soltos e daquelas cujos cabelos estavam presos.
A protagonista principal da novela das oito estava linda e impecável, como uma boneca. Suspirava aliviada e, com gestos largos, anunciava à sua melhor amiga – aquela capaz de traí-la a qualquer capítulo – as vantagens da sua mais recente descoberta:
– Querida, você não imagina como é prática esta nova peruca plástica! Eu não ando tendo tempo nem de ir ao salão! Hoje amanheci toda descabelada e atrasada para uma reunião de diretoria: aí foi só prender o cabelo e ajustar por cima este maravilhoso cabelo vermelho e pronto! Nem um fio saiu do lugar o dia todo!
As telespectadoras certamente sabiam o que era não ter tempo – nem de ir ao salão, nem de ir ao espelho do próprio banheiro! Nem de pentear-se, pintar-se – nem de ir ao médico!...
Elas estavam sempre cansadas, levantando-se precipitadamente a cada manhã para prepararem o café para si mesmas e/ou suas famílias; deixarem o almoço pronto ou as ordens para eventuais empregadas; saírem correndo para o trabalho; deixarem os filhos na escola; só saírem do trabalho após o anoitecer, mas nem por isto livrarem-se do trânsito engarrafado; chegarem em casa exaustas e irritadas para encontrarem os demais membros da família exigentes e irritados assistindo na televisão mulheres lindas e maravilhosas nas novelas, telejornais, programas de auditório: com seus cabelos perfeitos e discursos padronizados, fazendo as mulheres do lado de fora da telinha sentirem-se fracassadas e culpadas por estarem tão fora dos padrões...
Tão insatisfeitas com seus cabelos lisos escorridos quanto as que os têm ondulados, cacheados e crespos. Tão insatisfeitas as loiras – porque o tom é muito pálido, ou muito cinza, ou muito castanho-claro –, quanto as morenas – porque não são loiras. Todas insatisfeitas porque nenhum cabelo é suficientemente sedoso, ou macio, ou brilhante quando confrontado com os padrões aceitáveis internacionalmente pela indústria
cosmética.
O tempo que não tinham a perder, era gasto em hidratações constantes; cortes; permanentes; escovas; tinturas;... Uma vez por mês logo tornava-se insuficiente: era preciso aumentar a frequência para quinzenal e, depois, semanal. Algumas necessitavam de cuidados diários: só saíam de casa após um longo ritual de banho, cremes, secador, maquiagem,...
Elas não suportavam mais. Ansiavam pela salvação: era preciso conhecer estas tais perucas ao vivo!
– Será que são bonitas mesmo? Será que são caras?
Não se sabe como, no dia seguinte já havia outdoors pelas ruas anunciando o novo produto. Das janelas traseiras dos ônibus do transporte coletivo urbano, a “mocinha” acenava sorridente sob perucas de cores variadas. Adolescentes distribuíam folhetos nos semáforos, informando que já estava disponível nas melhores lojas de todo o país “o cabelo da mulher moderna”, com assinatura de uma das mais conceituadas
multinacionais.
As primeiras consumidoras, claro, foram as mais desesperadas – aquelas mais oprimidas pela falta de tempo e as mais insatisfeitas com seu próprio cabelo.
Seguidas pelas mais curiosas, atrevidas, mais modernas e arrojadas.
Logo foi a vez das com sérios problemas de queda de cabelo, causada por doenças ou por seus tratamentos traumáticos.
Não tardaram a juntar-se às demais aquelas que simplesmente não resistem a uma promoção, a uma novidade, a uma promessa de beleza fácil...
Ao final, tornou-se uma verdadeira febre, todas compravam – mesmo que sem saber bem o porquê; mesmo que apenas para pertencer, para não ser a única a ficar de fora daquele momento histórico da humanidade.
A peruca era um artefato simples e prático: consistia numa espécie de touca de natação, destas de silicone, pelo lado de dentro, enquanto que, por fora, admitia inúmeras variações sobre o tema “cabelo de boneca Playmobil”. Havia diferentes comprimentos de cabelo; com e sem franja; repartido no meio e do lado; castanho, preto, loiro, ruivo...
Depois foram aparecendo outras cores, visando agradar o público adolescente e rebelde: azul, roxo, laranja, verde, furta-cor...
E o estilo moicano, os espetados para algum lado, ou para todos ao mesmo tempo, fisgaram os punks.
Aos poucos havia tantos modelos quantas fossem as diferentes tribos – não só entre adolescentes, mas também entre adultos e idosos.
Entretanto, estranhamente, por mais diferentes que fossem, ao mesmo tempo, eram todas iguais.
Ah!... a juventude eterna!... a felicidade por apenas uns trocados!...
Na verdade, no início, eram muitos trocados. Porque a
marca era famosa; o material, caro; o design, exclusivo.
Mas, depois de uns seis meses, começaram a aparecer imitações de boa qualidade e mais baratas. E outras, ainda mais baratas e de qualidade duvidosa.
Ao termo de um ano, podia-se encontrar uma enorme variedade de modelos, cores, preços e qualidades – até mesmo nas lojas de R$ 1,99.
Porém, ao final de um ano...
Bem, o que ocorreu foi que... a moda dos cabelos de plástico era tão prática!... mas mesmo assim as mulheres continuavam tendo que correr. E quanto mais corriam, mais ainda tinham que correr e menos tempo restava.
Foi ficando difícil arrumar tempo sequer para trocar de peruca! Embora as mais ricas dispusessem de grande variedade de cores e modelos, para as mais diversas ocasiões e estados de espírito, foi se tornando cada vez mais difícil arrumar tempo para tirar a peruca ao deitar e recolocá-la ao amanhecer.
Ademais, o fabricante garantia que se podia ficar com a mesma peruca por até uma semana.
O concorrente alegava que as suas podiam permanecer sem troca por até uma quinzena.
E os médicos não viam problema em que suas pacientes mantivessem a mesma peruca por até trinta dias – pois não constava na
literatura médica qualquer relato de efeito colateral deletério.
Com isto, as mulheres simplesmente foram deixando de tirar seus cabelos de plástico. Porque perdiam a conta. Esqueciam. Ou estavam com muito sono naquele dia.
Algumas mulheres começaram a ter muitas dores de cabeça – já que as toucas de silicone eram mesmo um pouco apertadas –, mas ninguém associou uma coisa com a outra. Afinal, todas elas dispunham de inúmeras outras causas para cefaléia.
Além disto, as mulheres nem se lembravam mais que estavam usando perucas. Os médicos estavam tão acostumados a vê-las com seus cabelos de plástico que nem reparavam mais.
Porém, as toucas eram justas e plásticas, deixando o couro cabeludo sob elas abafado e no escuro – ambiente ideal para a proliferação de fungos e outros seres repugnantes e microscópicos. Especialmente depois que as mulheres decidiram não mais tirá-las, independente das circunstâncias: quer chovesse, quer fizesse sol. As perucas não eram mais tiradas nem para tomar banho!
Foi só quando, misteriosamente, uma mulher apareceu morta em pleno horário de expediente, que a trágica realidade veio à tona: seu cérebro fora devorado pelos vermes.
Um grande número de falecimentos veio a somar-se a este primeiro, antes que o alarme fosse dado em cadeia nacional – mas as proporções da calamidade acabaram por suplantar a oposição dos interesses econômicos envolvidos e, por fim, todo o país ficou sabendo.
As mulheres, então, foram obrigadas a retirar seus cabelos de plástico, revelando os cabelos verdadeiros sob aqueles... Porém, o que deles restara, de tão frágil, quebradiço, opaco, mortiço, formava uma massa disforme que as mulheres não mais reconheciam – não eram mais loiros, nem castanhos, nem ruivos, nem crespos, nem lisos.
Aliás, as próprias mulheres não se reconheciam mais, desprovidas tanto de seus cabelos naturais quanto de seus cabelos de plástico!
As mulheres, agora, eram todas iguais.





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