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Ly Lanna

  • Foto do escritor: Coletivo Marianas
    Coletivo Marianas
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

Ly Lanna

Ly Lanna é professora da rede pública de Curitiba, onde reside com sua filha e sua cachorrinha Lupita. Atualmente é formadora de professores em um núcleo de educação, onde trabalha com educação matemática. É mestranda em Educação pela UFPR.


Autora publicada pelo selo cultural Lambrequim com as obras Sentinela de pedra & outros contos para gente (in)quieta (2024) e Vrykolaka (2026), considera-se uma amadora apaixonada pelos encantos das artes.

Alguns trechos da autora




[...] Cada história contada, na verdade, começa muito antes de começar. Toda história carrega sua própria história, aquilo que vem antes do “era uma vez”, e aqui vou tentar contar um pouco da história dessa história ao passo que, ao mesmo

tempo, conto do evento em si.


Uma vez, quando mais moço, fui com meu pai para a maior montanha da nossa região, Los Andes. Era tempo de aprender a sobreviver, dizia meu pai. Passado de geração em geração, desde que meus ancestrais foram conquistados

pelos Tahuantinsuyu, aquele era um ritual para o menino virar homem, que alguns poucos dos pequenos e tradicionais povoados da região ainda tentavam manter, assim como os contos da tradição oral.


O ritual era, a um só tempo, simples e hercúleo: exigia sacrificar aos Apus das montanhas o menino que subiu e, assim, aquele que subiu a montanha descia dela como homem e o menino pertenceria para sempre a ela. Meu avô dizia que a montanha ajuda os vivos a invocarem a própria força, mas que devemos entrar nela com humildade e respeito, se não, ela te traga. Por isso é que, simbolicamente, oferecemos o menino a ela, como presente.


A montanha que meu pai escolheu subir foi a maior, Apu Aconcágua, a montanha sagrada de onde Mama Quilla, a deusa da lua, mirava o mundo; onde é possível ficar mais perto dos deuses do Hanan Pachã, e se eles se agradarem da nossa força e coragem, abençoam-nos com alguma graça. Meu pai dizia que havia recebido força. E, sem dúvidas, foi o homem mais forte que já conheci. Meu avô dizia que recebeu paz para o espírito inquieto e, de fato, morreu como um sábio bastante respeitado entre os seus. Eu já sabia o que pediria.Contam os antigos que o Sapa Inca, o primeiro imperador do império das 4 direções, descobriu a magia da montanha

através de um sábio viajante, e que levou seu filho que estava à beira da morte até o cume para pedir aos deuses a graça da cura. Quando o filho foi curado, o imperador fez um sacrifício para os deuses, ele sacrificou um belo e saudável menino de seu povo. A montanha abraçou o corpo do menino com seu manto gélido e acolheu seu espírito inocente.


Dizem que, após o sacrifício, muitos tentaram subir a montanha para pedir uma graça, mas poucos conseguiam ser fortes e corajosos o suficiente para conseguir. Com o passar dos anos, os sacrifícios reais foram sendo proibidos e mal vistos, acabando-se de vez com a chegada dos espanhóis, há centenas de anos.

Mas as crenças de um povo não acabam só porque estranhos lhes tomam as terras. Os rituais aos Apus se mantiveram entre os povos tradicionais, mas passaram a oferecer

em sacrifício simbólico o menino que sobe, para este voltar como símbolo da conquista da grandeza no homem. E tinha chegado a minha vez, finalmente, no meu aniversário de 17 anos. Como de costume, o pai levaria o filho à montanha. [...]


Trecho de um conto de Sentinela de pedra & outros contos para gente (in)quieta, Lambrequim (2024).




O corvo pousou no galho podre da árvore envenenada pelas sombras. O barulho do estralo da madeira seca se desfazendo, despertou o verme que a ocupava. Vagarosamente se pôs para fora do novo buraco provocado pelo pouso do estranho. Aquela repentina exposição do verme causou-lhe uma morte rápida, invejável para os demais micros seres vivos que morriam aos poucos naquele cenário assombroso. O corvo bicou algumas vezes o tronco, na esperança de mais algum verme o saciar a fome com a inocente necessidade de fuga diante do desconhecido. A morte combinava com aquele lugar amaldiçoado. A vida ali só prosperava enquanto se alimentasse das sombras, da podridão e dos sons da solidão estranha, aquela que se deixa estralar pelo gemido do vento.


[...]


— Nara, eu já te contei como foi, não quero gastar nosso tempo recontando tudo, quero que me dê sua opinião profissional de como isso pode estar afetando a minha qualidade de vida e por quê?!! — eu perguntava aflita à minha psicóloga. Já estava sendo interrogada há meia hora pelo último sonho que contei.


— Querida, o diabo mora nos detalhes! Preciso que tente se lembrar de algo mais, de

qualquer elemento desse teu sonho, assim posso analisar melhor esse fundo do seu inconsciente.


O universo onírico pode nos contar muito sobre nós mesmos, até mesmo sobre os mistérios que carregamos em nossas almas.


— Nara, você virou alguma dessas religiosas que falam em vida passada, reencarnação ou coisa parecida? — eu já sabia da pegada esotérica se manifestava nela às vezes, mas ela sabia que eu gostava de uma análise concisa, com base teórica plausível, então me irritava comentários espirituais ou do tipo, nos nossos espaços de fala.


— Tudo bem, eu só quero te ajudar e nem sempre meus métodos serão de todo do seu agrado. Você está tomando a medicação para dormir? — ela desviou o assunto.


— Não. Não quero. Não quero abusar dos benzodiazepínicos. Quero preservar minha mente e poder tomar um vinho de vez em quando.


— Eu bem sabia o quanto esses tipos de medicações podiam ser prejudiciais.


— Mas estou tentando técnicas interessantes, e o problema não tem sido a iniciação no sono, mas a duração dele e o súbito acordar após esses sonhos insanos, quando o corpo sente uma carga grande de stress! Eu nem vejo tv na minha vida, para ter tanto conteúdo horrível desse tipo repertoriando meus sonhos...


— Você só precisa resistir. Você tem traumas suficientes na sua história para manifestar de diversas formas, e o sonho é um recurso de investigação. Precisamos entender melhor o que tem aí.


— Nara sempre insistia nos meus sonhos, de uma maneira quase que obsessiva, até.


— Resista, você é forte, e quando descobrir qualquer coisa, se lembrar de alguma informação, me conte. Me conte tudo! Cada detalhe importa pra gente tecer melhor essa angústia que você não traz pra superfície.


Aquilo era algo estranho de se dizer para uma paciente. Juro que se eu não soubesse de todos os certificados e diplomas da Nara, eu duvidaria de sua habilidade em alguns momentos. Ela havia frequentado as melhores instituições e feito as melhores especializações da área dela e me surpreendia com suas inclinações para algum estilo coaching de constelação sei lá do quê!


— Espero que seu diário inclua mais do que seus horários de refeição, cardápio, atividade física e dados metabólicos da próxima vez que eu te ver. Sua tarefa da semana é arranjar um programa social com algum amigo e tentar exercer seu lado feminino. Ficar de papo com os idosos não vale como vida social. Você é jovem, vá viver um pouco fora da zona de conforto!


Ela lia meu diário desde que combinamos que eu registraria minhas atividades mais

relevantes e eu havia dito que já fazia isso no meu diário e que ela poderia lê-lo se quisesse. Eu não perderia tempo anotando mais coisas inúteis.


— E por lado feminino você quer dizer o quê? Usar saia ao sair com alguém? — revirei os olhos com a ideia, rindo.


— E deixe meus velhinhos fora disso, são as únicas conversas que valem a pena! Além disso, não se cansam de mim, pois me esquecem com frequência.


Era para soar engraçado, mas lembrei da dona Adélia, a minha paciente bastante fragilizada e com demência avançada. Eu cuidava do caso dela há um bom tempo e havia me apegado muito com aquela senhorinha danada. Na hora a graça passou. Era

muito sério aquilo tudo.


— Engraçadinha. Seu senso de humor só melhora! Falo sério. Faz meses que não vai em um encontro com pessoas. Seus pacientes são compromissos de trabalho, não são pessoas com quem possa ter vida social, você sabe muito bem disso. Ter um peixe também não conta. Vá, tente se soltar um pouco, relaxe e depois me conte o quanto eu errei com o pedido. Você é uma profissional da saúde mental, sabe da importância de interagir socialmente...


Toda sessão tinha uma “missão”, um dever de casa para realizar, esse era o método dela, uma salada terapêutica com um pouco da linha cognitiva comportamental com psicanálise e psicologia analítica. Saí do consultório da Nara com a brincadeira ecoando: claro que vou te mostrar o quanto você está errada! Com quem eu iria sair para mais um encontro entediante e com os mesmos finais desconcertantes, onde a pessoa não conseguiu despertar meu interesse, fica desinteressada e só quer acabar a noite, inventando qualquer desculpa para tal?! Ah, claro! Teria que ser alguém novo, pois eu já havia gasto todas as oportunidades conhecidas.


Seria um desafio achar alguém que não soubesse da minha fama de fria-frígida e esquisitona. Claro, havia o Dom, meu supervisor na psiquiatria, que aceitaria um convite meu na hora, mas eu não envolvo trabalho com vida pessoal, mesmo sendo bem comum no Santa Madalena colegas de trabalho saírem juntos e até terem relacionamentos. Mas já dizia meu pai: onde se ganha o pão, não se come a carne!

Naquela noite jantei sozinha, como de costume. Olhando meu peixe parado em seu aquário, o cumprimentei em pensamento: boa noite, Nara! Sua xará disse que você não me oferece vida social adequada! Como sempre, sem resposta. A companhia perfeita!


Trecho do romance Vrykolaka, publicado pela Lambrequim (2026).

Livros

Vrykolaka (Lambrequim, 2026)

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Publicado por: Tânia d'Arc

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