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Letícia Lopes


Letícia Lopes

Letícia Lopes Ferreira é mestre em Letras (Mackenzie), tradutora e revisora. Quando era jornalista (PUC), ganhou um prêmio por uma matéria. Depois, publicou um conto em uma coletânea independente chamada Torre de papel e dois contos na coletânea Ampliando horizontes: poesia e ficção.


Como tradutora, publicou Pastrix: a revolução de uma santa pecadora, de Nadia Bolz-Weber, Barbed wire kisses: a história do Jesus and Mary Chain, de Zoë Howe e Missy: cheia de estilo – dia da foto, de Susan Nees. Em 2024, participa da coletânea dos 10 anos do Coletivo Marianas e organiza outra coletânea sobre intolerância religiosa pela Donizela.

 

Alguns poemas da autora



É tarde na casa da leitura


Você gostava do sol, aprovaria isto? Eu não gosto do sol, mas não desaprovo. Você gostava de cães, eu também gosto.


Perdão por falar com você no passado, corrijo: você gosta do sol, você gosta de cães. E daqui você gosta? Não acha que há muito ruído? Alguém escuta Girls just wanna have fun, o que você e eu sabemos que é uma verdade manca, porque garotas como nós (posso chamar você e eu de “nós”?), garotas como você e eu, a diversão que queremos nem sempre é audível. Isso ainda incomoda você? A mim, incomoda.


O sol borra minha audição.


sol carro trem bicicleta moto bola barram


Apuro meu coração para as vozes realmente audíveis. Você está ouvindo?

E do seu nome, você gosta? Assim grande, assim colorido? Assim eu gostaria do meu nome? Ainda não decidi se quero ser vista, só declaro que quero ser ouvida.

Essa voz eu ouvi. Você ouviu? Ouviu o bebê dizer au au? Uma voz que me corta, essa eu ouço.


Au au


“Como é o nome dela?”, pergunta a mãe do bebê.


“Maggie”, a dona do cachorro responde e pergunta:


“Como é o nome dele?”


“Mateus”, responde a mãe do bebê.


Mateus é ouvido.


Você acha que preciso renascer para ser ouvida? Preciso ouvir tudo outra vez como se nunca tivesse ouvido? Ouço a tarde como se nunca a tivesse ouvido. A primeira tarde do mundo. Esta tarde que alcança teu nome. Nesta tarde, espero por uma nova tarde que ouça minha voz, que ouça meu nome.

Curitiba, Paraná


Publicado em Ampliando Horizontes: poesia e ficção - contos, ano 2, pela FCC.





Certo capitão


Na noite clara, morna e mansa, eu estava livre. A volúpia do ódio me enchia o peito e a boca. Água em caneca de alumínio, cheiro de formiga esmagada. O som dos grilos era um fandango em meus ouvidos prontos para dançar.


Sozinho ia ao local do duelo. Minhas coxas coladas aos flancos do zaino velho transmitiam ao animal a excitação que me fazia semelhante a ele. Jogando as mãos para o céu, certo de que iria deixar minha marca naquela cara de cachorro do Bento Amaral, eu ri, feliz, para as estrelas. “Vou pelear, vou pelear”, meu coração cantava. Vou jogar-me sobre outro ser humano, pleno de alegria e de raiva, não para amar, mas para ferir, quiçá matar.


Eu e ela, aquela que me apareceu e tomou minha mente e meu corpo emprestados, como quem enfia um poncho pela cabeça. Um fantasma de outro tempo, aparecido em uma tarde de vento. Não me meteu medo porque não sou homem de ter medo de nada, muito menos de mulher, esteja viva ou morta, seja deste ou de outro mundo (...)


Publicado, de forma independente, na coletânea de contos Torre de papel.

 

Coautorias

Torre de papel (publicação independente, 2015)

Ampliando horizontes: poesia e ficção – contos

(Fundação Cultural de Curitiba/Máquina de Escrever, 2023)

 

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